Entrevista a Fréderic Lordon (economista do CNRS) de Xavi Espiet para o jornal el critic de barcelona, feito a 16 de abril, publicado a 23 de abril. (traduzido a pressão a partir do blog La pompe a phynance, faz parte do "Les blogs du diplo" http://blog.mondediplo.net/-La-pompe-a-phynance-)
Segundo você, o que fez que o governo decidir-se a propor um projecto
de reforma? E em que é que a lei el khomri seria um símbolo?
Não há nenhuma explicação para esta cegueira ideológica mais absoluta, este governo dito de esquerda faz na realidade e em todos os domínios a politica a mais a direita que qualquer outro governo na V república. Quando se consideram as coisas com um pouco de recuo, vemos que existe um verdadeiro acontecimento politico a escala histórica do regime. As consequências não vão tardar a manifestar-se – o mais tardar nas eleições 2017 – e serão de grande amplitude. Estamos a assistir a liquidação histórica da social-democracia francesa - o que na realidade é um alívio. Mas seria necessário que elas sigam ainda mais a direita que qualquer outro para que esta liquidação seja adquirida. Enfim é o fanatismo neoliberal do partido socialista que conduziu este governo a propor esta lei que nem o Sarkozi teria apresentado, dá-nos uma ideia do estado de decomposição intelectual e de perdição ideológica no qual se encontra este partido, que só já tem com a esquerda relações de inercia nominal, mas mais que o fecho ideológico no qual se encontram é preciso ter perdido contacto com o estado real da sociedade e tudo ignorar do sofrimento e da precaridade geral onde se encontra o trabalho assalariado, para ter a ideia louca de querer aprofundar ainda mais.
Depois da derrota das mobilizações contra as novas leis das reformas a rua "grita" de novo, que relação devera ter segundo você a NUIT DEBOUT com a mobilização sindical contra a reforma do trabalho?
Relações muito mais estreitas do que as que existem actualmente, não haverá transformações politicas amplas sem um movimento popular de massas, ora um tal movimento tem de pensar, a forma de uma greve geral e não existe greve geral sem a cooperação das variadas organizações de assalariados, tão simples quanto isto. Mas mesmo sem certezas (é uma atenuação) quanto a activação efectiva da greve geral – e seja o que for necessário, tudo o que pudermos para aumentar a probabilidade - é de uma importância estratégica operar a junção entre diferentes fações da esquerda que barreiras sociológicas separam normalmente, entre outras a esquerda militante do centro das cidades e a das classes operárias sindicalizadas, em detrimento de todos os obstáculos, existe uma base objetiva para esta convergência: a condição salarial. A aproximação esta ainda mais facilitada pelo neoliberalismo maltratando cegamente e uniformemente inclusivo a sua própria base social a priori a saber os estudantes, futuros quadros do capitalismo. Mas condenado por ele a precaridade e em formas cada veze mais degradadas da inserção no mundo do trabalho – e isso mesmo que os estudantes alimentem ambições com as quais a sua trajetória escolar esteja em relação... E descobrem que elas serão desapontadas, temos aqui todos os ingredientes para o reencontro das classes sociais que a sua heterogeneidade mantinha afastadas. Mas não posso acabar esta resposta sem mencionar que existe uma comissão greve geral no NUIT DEBOUT, a quem devemos as primeiras ações muito concretas e em particular o facto de ter organizado uma delegação de estudantes na Gare Saint- Lazare para ir encontrar os operários ferroviários no dia 12 de abril. Estas ações são absolutamente exemplares e é em multiplicando essas ações que estaremos a altura das nossas palavra de ordem, CONVERGÊNCIA DAS LUTAS.
Muitos veem em NUIT DEBOUT um fenómeno geracional porque é que esta juventude que pretendíamos despolitizada constrói o seu "ser" politico for a dos canais institucionais?
Da minha parte estou reticente a ideia de fechar NUIT DEBOUT numa categoria de fenómeno geracional, muitas vezes a recodificação geracional de um fenómeno social é o típico do comentário mediático – e reconhecendo as coisas com lucidez uma das razões para a qual o acolhimento mediático não foi muito mau, os jornalistas responderam, na maioria das vezes sem se aperceber, a relações de afinidade sociológica que estão totalmente ausentes, quando se trata de movimentos sindicais clássicos: e de maneira também inconsciente os médias deixam-se levar por um racismo social aberto. Em todos os casos o ponto importante é o seguinte: a recodificação geracional risca sempre de funcionar como um operador de despolitização, é só uma "historia de jovens" logo uma historia sem importância que passara quando ficarem velhos – o mais rapidamente possível, esperamos e entretanto estamos prontos a fazer prova de suavidade desde que não vá longe demais, eis onde nos leva a analise "geracional" dito isto, observo, mesmo que seja através do meu ponto de vista, que é parcial como todos os pontos de vista, uma efervescência intelectual e politica inédita da juventude estudantil universitária, e mesmo - é um facto extremamente marcante – dos jovens dos liceus, recebo cada vez mais contactos e solicitações dos estudantes dos liceus, que testemunham posso vos dizer, de uma consciência politica critica muito afinada, é um fenómeno completamente novo. Os governos que estarão a cargo dos assuntos daqui 10, 15 anos podem estar preocupados, alguns problemas sérios os esperam que florescem desde já!
Aquando da sua intervenção a 31 de Março você chamava ao "desejo politico que pausa e afirma". Em plena crise do estado-nação e político, quem seria o sujeito de esses desejos e de quais "objetos políticos" poderão ou deverão se apropriar? e que responderia você a todos os que qualificam esta "afirmação" renovada todas as noites na praça da república de puramente "voluntarista"?
O sujeito de esse desejo é inatingível ex ante o "nos" constrói-se no processo mesmo das suas realizações "convergência das lutas" é uma estenografia que diz o seu desejo de ser o mais alargado possível – e se quisermos nomear especificamente os seus compostos: A juventude urbana precária, as classes operarias sindicalizadas (e na realidade mais largamente a todo o mundo do trabalho) , os bairros suburbanos abandonados. Quanto aos seus objectos ele escolhera-os ele mesmo. É certo que em todos os casos este movimento não se deve abandonar ao arrebatamento intransitivo de si, e que se a sua energia não se converte em desejos determinados - em objetivos políticos explícitos – ele será improdutivo. Conservar este sentido do objeto supõe voltar a falar em permanência da necessidade dos debates para lutar contra as divisões. Da minha parte a qualquer coisa como "um movimento telescopico" entendo nisto, que se daria uma graduação de objetivos indo da (próxima) retirar a lei el khomri, a (longa) Elaboração de uma constituição para uma republica social, passando por toda uma serie de ideias "intermédias" a impor no debate politico a imagem por exemplo da imposição feita a banca de se descomprometer totalmente de atividades especulativas mas poderíamos falar aqui de muito mais coisa neste registo. Haverá nisto tudo um "voluntarismo da afirmação" mas que politica não funciona assim? Mesmo se claro não se pode contentar disso, a intervenção politica faz uso essencialmente de performativo. Dizer "há" é um meio de contribuir a fazer existir a coisa da qual dizemos que existe antes que ela exista mesmo. E é verdade: é um tipo de intervenção que tem tudo da aposta, mesmo que a aposta esteja perdida, ela semeia qualquer coisa que fera o seu caminho: uma ideia, o sentido de um problema, uma exigência, ect.
Sieyes, na revolução francesa, enunciava o princípio da democracia representativa, a vontade popular só se pode exprimir através dos representantes do povo. Da sua configuração mesmo NUIT DEBOUT mete em questão estes princípios da democracia representativa e é duramente criticada a cada AG. Que novos modos de decisão/legitimação/criação politica vos parece antever NUIT DEBOUT?
O que vou dizer vai sem duvida me valer uma repreensão da parte de NUIT DEBOUT mas não importa, eu penso que na escala macroscópica não há politica sem uma forma ou outra de institucionalização, e mesmo de representação, de resto a AG de NUIT DEBOUT não esta conforme ao modelo de horizontalidade que revindica acumplir, por exemplo não há AG sem - regras de tempo de fala, de vez, respeito do moderador... - e estas regras tem por definição um caracter institucional e vertical porque se impõe a todos, que fazem autoridade, que todos reconhecem – conceptualmente a verticalidade é isto, temos desde logo e logo a esta escala, a instituição vertical o que prova bem a inanidade de uma palavra de ordem maximalista horizontal pura, é de facto insustentável. A verdadeira questão não esta em absurdas antinomias "instituição vs não instituição" ou "horizontal vs vertical" mas na maneira como "mobilamos" as nossas instituições, e da forma como conseguir conter a verticalidade que necessariamente produzimos do simples facto de nos organizaremos coletivamente. A NUIT DEBOUT pode mesmo que se verticalize manter uma configuração o mais próximo que possível de essas ideias de horizontalidade e de democracia direta. Mas só o pode sem dúvida por razão da sua escala reduzida em que opera. É preciso então juntar duas ideias que na realidade não tem nada de contraditório, de um lado a configuração institucional de uma coletividade a escala macroscópica digamos nacional, não poderia ser a simples copia do modelo experimentado a escala da praça da republica, mas inversamente a NUIT DEBOUT ilustra nela mesmo princípios genéricos que devem guiar a elaboração de uma configuração institucional global: subsidiariedade máxima, o que quer dizer a maior delegação d'autonomia possível ao nível local, desconfiança no que toca ao potencial de captura que representa toda a institucionalização, controlo apertado dos representantes e dos porta voz – controlo que significa revogabilidade permanente (regulamentada) - organização da escuta constante dos níveis de organização inferiores através dos níveis superiores, em particular para não deixar aos níveis superiores o monopólio da iniciativa que transformaria os níveis inferiores em simples camaras de aprovação: As ideias devem circular nos dois sentidos e os níveis superiores continuar a se inspirar dos níveis inferiores.
Saber estender o movimento as classes populares dos bairros periféricos das grandes cidades vos parece ser uma condição necessaria ao seu sucesso e legitimidade. Quid as classes populares da "França periférica" notavelmente "LEPENizadas"? Como se dirigir a uns sem se provocar a reprovação dos outros? E caso não se consiga construir uma linguagemcommun havera o perigo de um género de reação popular "pro status quo" gaulista como em 68?
É uma pergunta tão decisiva que é quase dolorosa... Quando vemos as dificuldades a simplesmente fazer agir fações politizadas mas sociologicamente héterogenas como as classes operarias sindicalizadas e os meios do militantismo urbano, medimos lucidamente as barreiras a ultrapassar, para tecer laços por um lado com a população dos bairros e por outro as populações da "França periferica" como voce diz - nem é preciso insistir em tudo o que opõe esses dois grupos - não podemos ter ilusões, acontecimentos como NUIT DEBOUT não tem nele nenhum poder para alterar tão profundamente essa realidade social tal como a LEPENização. Essas são questões de militantismo local, o mais das vezes invisível que parte a conquista das pessoas uma a uma ou quase. O movimento NUIT DEBOUT pode no entanto contribuir a meter na paisagem politica, uma verdadeira proposição de esquerda, que se faz um bom caminho poderá a termo aparecer como uma verdadeira alternativa ao FN, esta não sera uma obra facil....
NUIT DEBOUT faz aparecer o reductionismo revendicativo das lutas e ultrapassa as ambições sindicais contra a lei el khomri, você declara a morte da actual ordem politica francesa e apela a uma republica social. O rei esta enfim nu? NUIT DEBOUT uma assembleia constituinte? E que fazer para que seja efectivamente uma?
A formula "não reivindicamos nada" pede a ser adequadamente compreendida - apercebi-me "post festum" que ela tinha criado toda uma serie de mal entendidos tal como com os sindicatos, é claro que não se trata aqui de declarar caduca as lutas reivindicativas onde elas acontecem - não seria pertinente, e provavelmente muito estúpido. Mas trata-se aqui de chamar a atenção sobre, o facto que as revindicação, por construção venham a exprimir-se num quadro que ela mesmo continua a manter inquestionável... e isso, mesmo que esse quadro desenhe as condições de possibilidade (ou impossibilidade) de algumas reivindicações. O sucesso de uma revindicação de subida do salário mínimo, por exemplo, passa a ser altamente improvável se esqueceremos de meter logo em questão as estruturas da mundialização - o poder dos accionistas, o livre-câmbio sem limites, as deslocalizações que opõem objectivamente todo o tipo de contrariedade ao aumento dos salários. Pedir "uma outra divisão da riqueza" é em vão se não nos interessaremos as estruturas que determinam a partilha das riquezas. O célebre TINA (there is no alternative) continua verdadeiro enquanto não tivermos atenção ao conjunto das estruturas neoliberais que o tornam verdadeiro! E fora das quais ela deixa instantaneamente de ser verdadeira para se substituir TINA por TIAA (there is an alternative!) é preciso criar as condições de possibilidade estrutural - quer isso dizer redesenhar o quadro, voltar a desenhar o quadro é outra coisa que reivindicar, é começar um processo altamente politico de reconstrução institucional, no sentido mais largo da palavra "instituição". Esse processo toma uma amplitude ainda maior quando se eleva ao nível de assembleia constituinte - para a ocasião o meta-quadro. Vemos bem que não existe ninguém a quem levar esta "revindicação" de uma assembleia constituinte! É o povo ele próprio, que deve se apropriar esse desejo, que o afirma e que o coloca. Agora é preciso elaborar o statuto de um apelo a uma assembleia constituinte que advém de duas interpretações diferentes. A primeira tem a ver, uma vez mais com o registo performativo da intervenção politica. Chamar a uma assembleia constituinte é uma maneira de colocar problemas, dois em particular:
• Estimamos que o sistema institucional actual, o da V republica, esta a dar as ultimas que nenhuma transformação significativa do quadro se possa produzir, e que deve ser inteiramente revisto, para a re-democratização, e para permitir diferenças politicas significativas - porque em definitivo é isto a democracia. A possibilidade sempre presente de fazer de outra maneira;
• Uma assembleia constituinte impõe igualmente não como jogo político, mas como meio de dar a mais alta forma jurídica aos princípios fundamentais dum modelo de sociedade: de mesmo que as constituições sucessivas das repúblicas francesas mais ou menos todas iguais! Tinha por finalidade real, santificar o direito de propriedade que é a base do capitalismo, parece que o projeto de acabar com o império do capital sobre a sociedade só pode passar por uma destituição do direito de propriedade e a instituição da propriedade de uso (propriedade quer obviamente dizer meios de produção e não bens pessoais). Só um texto com o alcance da constituição pode operar esta mudança realmente revolucionaria
E eis a segunda leitura do apelo a uma assembleia constituinte uma leitura histórica e estratégica: é preciso ver bem tudo o que nos afasta na realidade de um processo constituinte, a mais forte razão que nos levaria a uma republica social, no meu ponto de vista, a saber como acabar com o direito a propriedade (no sentido referido anteriormente) nesta segunda leitura, positiva, A assembleia constituinte é a consagração de um processo revolucionário a vir, que é na realidade a condição da possibilidade. Mas então porque se projetar assim num horizonte quase irreal? Porque é uma maneira de meter os problemas na agenda do debate politico. É uma maneira de impor o problema no espaço publico, que existe um problema com as instituições, e que a um problema com o império do capital sobre a sociedade - como a lei el khomri tem a virtude de nos mostrar da forma clara. É sem duvida uma longa caminhada que nos separa da solução e estes dois problemas, mais uma razão para começaremos já!!
As eleições 2017 aproximam-se, tirando o facto que o quadro politico a esquerda do PS não parece querer criar novos partidos, voce afirma que um PODEMOS a francesa seria contra-productivo porque?
A assembleia constituinte é uma resposta a essa questão, acho que temos que sair do que eu chamo de antinomia Occupy Wall Strees (OWS) / 15-M / PODEMOS. De um lado o OWS que infelizmente fez a demonstração da sua improdutividade política direta (isto é, excluído o efeito subterrâneo que nos trouxe o Bernie Sanders). E por outro lado 15-M que só foi produtivo ao se prolongar sobe a forma do PODEMOS, quer dizer sobe a forma que trai o espírito original: partido clássico, leader clássico, classicamente obcecado pelas eleições e decidido a jogar o jogo das instituições tais como elas são e sem demonstrar o mínimo desejo de as alterar. O apelo a uma assembleia constituinte é uma maneira de sair desta contradição da improdutividade ou do regresso as eleições. É preciso produzir "algo" mas este "algo" não pode ser devolvido ao funcionamente das instituições em acção, conclusão esse "algo" pode constituir precisamente a transformação das instituições.
FRÉDÉRIC LORDON
Não há nenhuma explicação para esta cegueira ideológica mais absoluta, este governo dito de esquerda faz na realidade e em todos os domínios a politica a mais a direita que qualquer outro governo na V república. Quando se consideram as coisas com um pouco de recuo, vemos que existe um verdadeiro acontecimento politico a escala histórica do regime. As consequências não vão tardar a manifestar-se – o mais tardar nas eleições 2017 – e serão de grande amplitude. Estamos a assistir a liquidação histórica da social-democracia francesa - o que na realidade é um alívio. Mas seria necessário que elas sigam ainda mais a direita que qualquer outro para que esta liquidação seja adquirida. Enfim é o fanatismo neoliberal do partido socialista que conduziu este governo a propor esta lei que nem o Sarkozi teria apresentado, dá-nos uma ideia do estado de decomposição intelectual e de perdição ideológica no qual se encontra este partido, que só já tem com a esquerda relações de inercia nominal, mas mais que o fecho ideológico no qual se encontram é preciso ter perdido contacto com o estado real da sociedade e tudo ignorar do sofrimento e da precaridade geral onde se encontra o trabalho assalariado, para ter a ideia louca de querer aprofundar ainda mais.
Depois da derrota das mobilizações contra as novas leis das reformas a rua "grita" de novo, que relação devera ter segundo você a NUIT DEBOUT com a mobilização sindical contra a reforma do trabalho?
Relações muito mais estreitas do que as que existem actualmente, não haverá transformações politicas amplas sem um movimento popular de massas, ora um tal movimento tem de pensar, a forma de uma greve geral e não existe greve geral sem a cooperação das variadas organizações de assalariados, tão simples quanto isto. Mas mesmo sem certezas (é uma atenuação) quanto a activação efectiva da greve geral – e seja o que for necessário, tudo o que pudermos para aumentar a probabilidade - é de uma importância estratégica operar a junção entre diferentes fações da esquerda que barreiras sociológicas separam normalmente, entre outras a esquerda militante do centro das cidades e a das classes operárias sindicalizadas, em detrimento de todos os obstáculos, existe uma base objetiva para esta convergência: a condição salarial. A aproximação esta ainda mais facilitada pelo neoliberalismo maltratando cegamente e uniformemente inclusivo a sua própria base social a priori a saber os estudantes, futuros quadros do capitalismo. Mas condenado por ele a precaridade e em formas cada veze mais degradadas da inserção no mundo do trabalho – e isso mesmo que os estudantes alimentem ambições com as quais a sua trajetória escolar esteja em relação... E descobrem que elas serão desapontadas, temos aqui todos os ingredientes para o reencontro das classes sociais que a sua heterogeneidade mantinha afastadas. Mas não posso acabar esta resposta sem mencionar que existe uma comissão greve geral no NUIT DEBOUT, a quem devemos as primeiras ações muito concretas e em particular o facto de ter organizado uma delegação de estudantes na Gare Saint- Lazare para ir encontrar os operários ferroviários no dia 12 de abril. Estas ações são absolutamente exemplares e é em multiplicando essas ações que estaremos a altura das nossas palavra de ordem, CONVERGÊNCIA DAS LUTAS.
Muitos veem em NUIT DEBOUT um fenómeno geracional porque é que esta juventude que pretendíamos despolitizada constrói o seu "ser" politico for a dos canais institucionais?
Da minha parte estou reticente a ideia de fechar NUIT DEBOUT numa categoria de fenómeno geracional, muitas vezes a recodificação geracional de um fenómeno social é o típico do comentário mediático – e reconhecendo as coisas com lucidez uma das razões para a qual o acolhimento mediático não foi muito mau, os jornalistas responderam, na maioria das vezes sem se aperceber, a relações de afinidade sociológica que estão totalmente ausentes, quando se trata de movimentos sindicais clássicos: e de maneira também inconsciente os médias deixam-se levar por um racismo social aberto. Em todos os casos o ponto importante é o seguinte: a recodificação geracional risca sempre de funcionar como um operador de despolitização, é só uma "historia de jovens" logo uma historia sem importância que passara quando ficarem velhos – o mais rapidamente possível, esperamos e entretanto estamos prontos a fazer prova de suavidade desde que não vá longe demais, eis onde nos leva a analise "geracional" dito isto, observo, mesmo que seja através do meu ponto de vista, que é parcial como todos os pontos de vista, uma efervescência intelectual e politica inédita da juventude estudantil universitária, e mesmo - é um facto extremamente marcante – dos jovens dos liceus, recebo cada vez mais contactos e solicitações dos estudantes dos liceus, que testemunham posso vos dizer, de uma consciência politica critica muito afinada, é um fenómeno completamente novo. Os governos que estarão a cargo dos assuntos daqui 10, 15 anos podem estar preocupados, alguns problemas sérios os esperam que florescem desde já!
Aquando da sua intervenção a 31 de Março você chamava ao "desejo politico que pausa e afirma". Em plena crise do estado-nação e político, quem seria o sujeito de esses desejos e de quais "objetos políticos" poderão ou deverão se apropriar? e que responderia você a todos os que qualificam esta "afirmação" renovada todas as noites na praça da república de puramente "voluntarista"?
O sujeito de esse desejo é inatingível ex ante o "nos" constrói-se no processo mesmo das suas realizações "convergência das lutas" é uma estenografia que diz o seu desejo de ser o mais alargado possível – e se quisermos nomear especificamente os seus compostos: A juventude urbana precária, as classes operarias sindicalizadas (e na realidade mais largamente a todo o mundo do trabalho) , os bairros suburbanos abandonados. Quanto aos seus objectos ele escolhera-os ele mesmo. É certo que em todos os casos este movimento não se deve abandonar ao arrebatamento intransitivo de si, e que se a sua energia não se converte em desejos determinados - em objetivos políticos explícitos – ele será improdutivo. Conservar este sentido do objeto supõe voltar a falar em permanência da necessidade dos debates para lutar contra as divisões. Da minha parte a qualquer coisa como "um movimento telescopico" entendo nisto, que se daria uma graduação de objetivos indo da (próxima) retirar a lei el khomri, a (longa) Elaboração de uma constituição para uma republica social, passando por toda uma serie de ideias "intermédias" a impor no debate politico a imagem por exemplo da imposição feita a banca de se descomprometer totalmente de atividades especulativas mas poderíamos falar aqui de muito mais coisa neste registo. Haverá nisto tudo um "voluntarismo da afirmação" mas que politica não funciona assim? Mesmo se claro não se pode contentar disso, a intervenção politica faz uso essencialmente de performativo. Dizer "há" é um meio de contribuir a fazer existir a coisa da qual dizemos que existe antes que ela exista mesmo. E é verdade: é um tipo de intervenção que tem tudo da aposta, mesmo que a aposta esteja perdida, ela semeia qualquer coisa que fera o seu caminho: uma ideia, o sentido de um problema, uma exigência, ect.
Sieyes, na revolução francesa, enunciava o princípio da democracia representativa, a vontade popular só se pode exprimir através dos representantes do povo. Da sua configuração mesmo NUIT DEBOUT mete em questão estes princípios da democracia representativa e é duramente criticada a cada AG. Que novos modos de decisão/legitimação/criação politica vos parece antever NUIT DEBOUT?
O que vou dizer vai sem duvida me valer uma repreensão da parte de NUIT DEBOUT mas não importa, eu penso que na escala macroscópica não há politica sem uma forma ou outra de institucionalização, e mesmo de representação, de resto a AG de NUIT DEBOUT não esta conforme ao modelo de horizontalidade que revindica acumplir, por exemplo não há AG sem - regras de tempo de fala, de vez, respeito do moderador... - e estas regras tem por definição um caracter institucional e vertical porque se impõe a todos, que fazem autoridade, que todos reconhecem – conceptualmente a verticalidade é isto, temos desde logo e logo a esta escala, a instituição vertical o que prova bem a inanidade de uma palavra de ordem maximalista horizontal pura, é de facto insustentável. A verdadeira questão não esta em absurdas antinomias "instituição vs não instituição" ou "horizontal vs vertical" mas na maneira como "mobilamos" as nossas instituições, e da forma como conseguir conter a verticalidade que necessariamente produzimos do simples facto de nos organizaremos coletivamente. A NUIT DEBOUT pode mesmo que se verticalize manter uma configuração o mais próximo que possível de essas ideias de horizontalidade e de democracia direta. Mas só o pode sem dúvida por razão da sua escala reduzida em que opera. É preciso então juntar duas ideias que na realidade não tem nada de contraditório, de um lado a configuração institucional de uma coletividade a escala macroscópica digamos nacional, não poderia ser a simples copia do modelo experimentado a escala da praça da republica, mas inversamente a NUIT DEBOUT ilustra nela mesmo princípios genéricos que devem guiar a elaboração de uma configuração institucional global: subsidiariedade máxima, o que quer dizer a maior delegação d'autonomia possível ao nível local, desconfiança no que toca ao potencial de captura que representa toda a institucionalização, controlo apertado dos representantes e dos porta voz – controlo que significa revogabilidade permanente (regulamentada) - organização da escuta constante dos níveis de organização inferiores através dos níveis superiores, em particular para não deixar aos níveis superiores o monopólio da iniciativa que transformaria os níveis inferiores em simples camaras de aprovação: As ideias devem circular nos dois sentidos e os níveis superiores continuar a se inspirar dos níveis inferiores.
Saber estender o movimento as classes populares dos bairros periféricos das grandes cidades vos parece ser uma condição necessaria ao seu sucesso e legitimidade. Quid as classes populares da "França periférica" notavelmente "LEPENizadas"? Como se dirigir a uns sem se provocar a reprovação dos outros? E caso não se consiga construir uma linguagemcommun havera o perigo de um género de reação popular "pro status quo" gaulista como em 68?
É uma pergunta tão decisiva que é quase dolorosa... Quando vemos as dificuldades a simplesmente fazer agir fações politizadas mas sociologicamente héterogenas como as classes operarias sindicalizadas e os meios do militantismo urbano, medimos lucidamente as barreiras a ultrapassar, para tecer laços por um lado com a população dos bairros e por outro as populações da "França periferica" como voce diz - nem é preciso insistir em tudo o que opõe esses dois grupos - não podemos ter ilusões, acontecimentos como NUIT DEBOUT não tem nele nenhum poder para alterar tão profundamente essa realidade social tal como a LEPENização. Essas são questões de militantismo local, o mais das vezes invisível que parte a conquista das pessoas uma a uma ou quase. O movimento NUIT DEBOUT pode no entanto contribuir a meter na paisagem politica, uma verdadeira proposição de esquerda, que se faz um bom caminho poderá a termo aparecer como uma verdadeira alternativa ao FN, esta não sera uma obra facil....
NUIT DEBOUT faz aparecer o reductionismo revendicativo das lutas e ultrapassa as ambições sindicais contra a lei el khomri, você declara a morte da actual ordem politica francesa e apela a uma republica social. O rei esta enfim nu? NUIT DEBOUT uma assembleia constituinte? E que fazer para que seja efectivamente uma?
A formula "não reivindicamos nada" pede a ser adequadamente compreendida - apercebi-me "post festum" que ela tinha criado toda uma serie de mal entendidos tal como com os sindicatos, é claro que não se trata aqui de declarar caduca as lutas reivindicativas onde elas acontecem - não seria pertinente, e provavelmente muito estúpido. Mas trata-se aqui de chamar a atenção sobre, o facto que as revindicação, por construção venham a exprimir-se num quadro que ela mesmo continua a manter inquestionável... e isso, mesmo que esse quadro desenhe as condições de possibilidade (ou impossibilidade) de algumas reivindicações. O sucesso de uma revindicação de subida do salário mínimo, por exemplo, passa a ser altamente improvável se esqueceremos de meter logo em questão as estruturas da mundialização - o poder dos accionistas, o livre-câmbio sem limites, as deslocalizações que opõem objectivamente todo o tipo de contrariedade ao aumento dos salários. Pedir "uma outra divisão da riqueza" é em vão se não nos interessaremos as estruturas que determinam a partilha das riquezas. O célebre TINA (there is no alternative) continua verdadeiro enquanto não tivermos atenção ao conjunto das estruturas neoliberais que o tornam verdadeiro! E fora das quais ela deixa instantaneamente de ser verdadeira para se substituir TINA por TIAA (there is an alternative!) é preciso criar as condições de possibilidade estrutural - quer isso dizer redesenhar o quadro, voltar a desenhar o quadro é outra coisa que reivindicar, é começar um processo altamente politico de reconstrução institucional, no sentido mais largo da palavra "instituição". Esse processo toma uma amplitude ainda maior quando se eleva ao nível de assembleia constituinte - para a ocasião o meta-quadro. Vemos bem que não existe ninguém a quem levar esta "revindicação" de uma assembleia constituinte! É o povo ele próprio, que deve se apropriar esse desejo, que o afirma e que o coloca. Agora é preciso elaborar o statuto de um apelo a uma assembleia constituinte que advém de duas interpretações diferentes. A primeira tem a ver, uma vez mais com o registo performativo da intervenção politica. Chamar a uma assembleia constituinte é uma maneira de colocar problemas, dois em particular:
• Estimamos que o sistema institucional actual, o da V republica, esta a dar as ultimas que nenhuma transformação significativa do quadro se possa produzir, e que deve ser inteiramente revisto, para a re-democratização, e para permitir diferenças politicas significativas - porque em definitivo é isto a democracia. A possibilidade sempre presente de fazer de outra maneira;
• Uma assembleia constituinte impõe igualmente não como jogo político, mas como meio de dar a mais alta forma jurídica aos princípios fundamentais dum modelo de sociedade: de mesmo que as constituições sucessivas das repúblicas francesas mais ou menos todas iguais! Tinha por finalidade real, santificar o direito de propriedade que é a base do capitalismo, parece que o projeto de acabar com o império do capital sobre a sociedade só pode passar por uma destituição do direito de propriedade e a instituição da propriedade de uso (propriedade quer obviamente dizer meios de produção e não bens pessoais). Só um texto com o alcance da constituição pode operar esta mudança realmente revolucionaria
E eis a segunda leitura do apelo a uma assembleia constituinte uma leitura histórica e estratégica: é preciso ver bem tudo o que nos afasta na realidade de um processo constituinte, a mais forte razão que nos levaria a uma republica social, no meu ponto de vista, a saber como acabar com o direito a propriedade (no sentido referido anteriormente) nesta segunda leitura, positiva, A assembleia constituinte é a consagração de um processo revolucionário a vir, que é na realidade a condição da possibilidade. Mas então porque se projetar assim num horizonte quase irreal? Porque é uma maneira de meter os problemas na agenda do debate politico. É uma maneira de impor o problema no espaço publico, que existe um problema com as instituições, e que a um problema com o império do capital sobre a sociedade - como a lei el khomri tem a virtude de nos mostrar da forma clara. É sem duvida uma longa caminhada que nos separa da solução e estes dois problemas, mais uma razão para começaremos já!!
As eleições 2017 aproximam-se, tirando o facto que o quadro politico a esquerda do PS não parece querer criar novos partidos, voce afirma que um PODEMOS a francesa seria contra-productivo porque?
A assembleia constituinte é uma resposta a essa questão, acho que temos que sair do que eu chamo de antinomia Occupy Wall Strees (OWS) / 15-M / PODEMOS. De um lado o OWS que infelizmente fez a demonstração da sua improdutividade política direta (isto é, excluído o efeito subterrâneo que nos trouxe o Bernie Sanders). E por outro lado 15-M que só foi produtivo ao se prolongar sobe a forma do PODEMOS, quer dizer sobe a forma que trai o espírito original: partido clássico, leader clássico, classicamente obcecado pelas eleições e decidido a jogar o jogo das instituições tais como elas são e sem demonstrar o mínimo desejo de as alterar. O apelo a uma assembleia constituinte é uma maneira de sair desta contradição da improdutividade ou do regresso as eleições. É preciso produzir "algo" mas este "algo" não pode ser devolvido ao funcionamente das instituições em acção, conclusão esse "algo" pode constituir precisamente a transformação das instituições.
FRÉDÉRIC LORDON